terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

uma dia frio

   A janela embaçada mostra que o aquecedor voltou a funcionar na madrugada. A neve era uma coisa linda antes de conhecê-la de perto. O dia em que quase quebrou a bacia ao escorregar na portaria da vendinha do coreano foi um marco. Odeia a neve, especialmente a lama preta e escorregadia em que ela se torna quando toca o chão e começa a derreter. Não há nada para comer em casa, terá que enfrentá-la quando a fome tornar-se insuportável. Bateu saudade das meninas. Violão e cigarro vão trazer algum conforto. Não atendem meus telefonemas. Hoje tem show.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

construção constante

    Gosto de aprender, esquecer e aprender de novo. Não entendo os artistas que continuam fazendo a mesma coisa sempre. Burilando sua especialização. Repetir até ficar diferente. Alguns dos meus músicos preferidos são assim. Personalidade forte e pouca versatilidade. Outros de meus músicos preferidos tem fases e interesses distintos, a versatilidade é parte da sua essência.  Reduzir a fases a mutiplicidade  implicaria em uma sequência cronológica, quando muitas vezes são canais distintos que trabalham em paralelo.
   Fases/canais que identifico no minha expressão artística e nos meus interesses auditivos:
-trilhas sonoras orquestrais mainstream
-improviso;

-instrumental brasileiro;
-jazz
-rock 
-soul/funk/r'n'b
-hip hop;
-Brock
-pop

-mpb
-progressivo
-blues
-country
-choro
-folk
-samba
-noise
-ambient
-erudito contemporâneo
-impressionismo

sábado, 31 de janeiro de 2015

improviso

coragem para mergulhar num sentimento
que aumenta ao redor enquanto tudo mais fica menor
poesia no computador é uma coisa estranha
o tec tec não ecoa
com o erro não se negocia mais
editar é fácil demais
a rima nos ensina a sina
rima interna quebra perna
metalinguagem obsessão
camisa de força
macacão sem dono
eu não sou ludista
mas há encantos
no tempo dos quebrantos
dos santos
das marionetes
das vedetes
das fadas
dos monstros
dos vilões
dos alçapões
no fluxo do pensamento
na escrita a mão
mas a caneta também foi feita à máquina
plástico, tinta e tungstênio
tinta é veneno
tinta é remédio
acabou o papel
quimera quem dera vir me visitar
na minha sala de mal estar noturno
bota e coturno nunca usei
pé de chinelo eu sou eu sei
não sou do tempo do nanquim
e agora o que me diz?
sem tecnologia
só vale o que se fala
somente o que estala
na língua
que acaricia
e xinga
e ignora
e estica e enrola
e corrobora com toda intenção
consciente ou não
acabou-se o que era la dolce vita
la fonte di trevere
no parlo niente
escrevo de memória
invento alguma história
nesta madrugada
verborragia propedêutica
hermenêutica
ethos, pathos
não sei o que quer dizer nada de deixa disso
faço um feitiço
toco de ouvido
play by heart
repeat from the start
you foxy foxy lady
minha oitava insistente
seus dentes
seus cachos
suas ancas
que agarro nacos
preciso cortar as unhas
preciso conhecer a cataluña
seus dentes secos
sua luz quente
flores dos seus ombros
brotarão dos escombros
como eram lindos meus navios que irei incendiar





quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Concreto

-Construir represas gigantes é mais lucrativo para as empreiteiras do que reservas de água para cada bairro.
-Construir hidrelétricas gigantes é mais lucrativo para as empreiteiras do que captação de energia solar em cada casa.
-Construir hospitais gigantes é mais lucrativo para as empreiteiras do que postos de saúde de medicina preventiva para cada bairro.
-Construir escolas gigantes é mais lucrativo para as empreiteiras do que construir escolas pequenas e médias em cada bairro. (aumentar o piso salarial e investir na capacitação de professores, nem pensar, mas estou falando de construções)
-"Privatiza que melhora." ‪#‎soquenao‬
-Está tudo na cara. A prioridade é o lucro, e não o cidadão. As empreiteiras mandam. Bancam as campanhas dos candidatos da situação e oposição. Vivemos no país do concreto. E, quer saber, não gosto do Niemeyer. Os desenhos são bonitos, mas as construções não são para pessoas usarem. Pouco banheiro e nenhuma árvore. E concreto esquenta pra caralho.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Livros

   Leio 4 livros ao mesmo tempo. De preferência ao mesmo tempo, alternando entre os 4. Gosto que sejam bem diferentes entre si. Ficção, tem que ter. Um de poesia, é bom. Um de história ou coisa parecida. De vez em quando um em inglês, francês ou espanhol. Os mais difíceis demoram mais e os mais fáceis vão mais rápido. De vez em quando algum volta.  Tenho evitado entrar em livrarias por que o prejuízo é certo e não estou podendo gastar muito.  Sebos tornam-se mais perigosos ainda por que compenso os preços baratos com uma montanha de livros.  Não entrei na onda do Kindle. Fiquei seriamente impressionado com o depoimento de um jornalista que foi entrevistar Susan Sontag, que morava em uma casa de 4 andares com as paredes cobertas de livros. Lembrei de Borges e seus Labirintos. Mundos dentro de Mundos dentro de Mundos. A Internet nos tem a todos presos nas suas garras. Os livros me salvam das timelines hiperativas, hoaxes irresistivelmente verossímeis, fatos questionáveis, listas inúteis e eventos fictícios. Fotos de pratos. Um close em um hamburguer. Reclamações de reclamações. Opiniões, piniões, piniões. Vida de gado. Eu costumava ser mais independente, eu costumava ser mais distraído, eu costumava ser mais concentrado, eu costumava ser menos nostálgico, menos contraditório, menos metalinguístico. A juventude e suas certezas avassaladoras que vão se esfarelando na poeira dos dias, na poeira das esquinas.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Eva Green

Eva Green mexe comigo. Falsa magra. Beleza sutil que ilumina mas não cega. Sua atração é completa pelo que emana de seu carisma e inteligência. Falsa magra. Olhos azuis enormes que vêem tudo e escondem muito. Olhar penetrante e emoções à flor da pele.  Uma inteligência que enrijece os bicos de seus peitos generosos. Franco-inglesa. Testa grande e cabeça oval. Perspicaz. Triste porém simpática. Aberta o grande prazer da conversação. Alta. Morena. Cabelos Longos. Nada tem contra blockbusters mas só faz o que acredita. Não teve filhos e se aproxima dos 40. Eva Green mexe comigo. Usando corpete na Inglaterra Vitoriana. Espiã. Morena de tez branca. Sorriso leve cheio de subtextos. Revolucionária. Existencialista. Vilã arrependida. Pernas longas. Pescoço que hipnotisa. Pitonisa. Ambiguidade moral. Falsa Magra. Rainha de Jerusalém. Camponesa. Feiticeira. Conexão com outras dimensões. Fúria Assassina. Flutua na sala. Francesa. Inglesa. Eva Green mexe comigo.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

pílulas de flashback

   Gosto de correr os olhos pelas laterais dos meus livros já lidos. Me faz lembrar de seus conteúdos e das épocas em que os li. Acessar pastas antigas, reconectar sinapses. Relê-los é mais raro. Assistir filmes de novo depois de muitos anos provoca uma sensação mais sensorial, me atrai mais. Ok, é mais fácil e bem mais rápido. Há tanta coisa que não li e quero ler, é raro eu reler um livro. Com exceção de Catatau, de Paulo Leminski, que releio a cada 10 anos.  O clima delirante, os  neologismos e a mistura de linguagens no fluxo de pensamento desse romance poético muito louco me inspiram para fazer música.  Evoca o que teria acontecido se René Descartes tivesse vindo com a Invasão Holandesa em Pernambuco, no Séc 17. O Filósofo pensa e existe no livro.  Pira com as cores no Brasil, suas matas, cachoeiras, pássaros, frutas. Faz uso de fumos locais, que dizem ter propriedades alucinógenas e prova seus efeitos por paredes de linhas sem pontuação.  Agora assisto Pulp Fiction pelo Netflix. Era tudo tão diferente a primeira vez que assisti. A nostalgia trouxe um outro sabor, a consciência das particularidades dos anos 90, no final do século XX. O filme tem estilo e ritmo. Telefones de discar.  Um amanhecer ensolarado em Los Angeles, que não conheço. Twang-Bar Guitars com reverbs de mola. Injeção de adrenalina no coração. Carrões rabos-de-peixe. Roteiro não-linear. Vida que segue. E vamos nessa.