segunda-feira, 11 de abril de 2016

a coxinha e o petralha

a coxinha e o petralha, quem diria
foram flagrados na cama
entre tapas e beijos
deram vazão a seus desejos
champagne e tubaína
mortadela e caviar
ela virava os olhos e vociferava entre os dentes "me corrompe, seu comunista!"
e o envolvia com suas pernas torneadas na academia
ele roçava nela a pança de chope e dizia "sua entreguista, me dá mais!"
e se embrenhava nas suas riquezas naturais



segunda-feira, 28 de março de 2016

luzinete não parava de cantarolar em bocca chiusa

 Luzinete não parava de cantarolar em boca chiusa. Eram improvisos em tom maior que pareciam hinos religiosos. Não tinham ritmo definido e não havia um padrão a ser reconhecido nas melodias. Eram notas jogadas em mmmm e nananana. Sempre alegres e vagos, cantados em uma espécie de transe, enquanto Luzinete cozinhava, lavava a louça e fazia a faxina da casa. Eu trabalhava na sala, tentando escrever ao piano. E não conseguia, os murmúrios vagamente alegres, induziam a uma hipnose como um cheiro vindo da rua, do qual não se podia fugir. Atravessava as frestas. Não poderia pedi-la para parar, eu estava morando de favor. Não era eu quem pagava seu salário. E quem sou eu para pedir para uma pessoa não cantar enquanto trabalha? Não seria capaz de tamanha crueldade. Mas era chato pra caralho, puta que pariu! Não adiantava fechar a porta, sua voz de contralto era potente.  Tinha um timbre bonito e era extremamente afinada, o que tornava mais difícil ainda qualquer represália. Era enlouquecedor. O dia inteiro esse murmúrio atravessando as paredes por toda a casa. Ah, Luzinete. 16h ela vai pra casa. Não vou conseguir fazer nada. Vou pro bar.

empresa de pesquisa

Imagina ter o seu imaginário, os assuntos que te atraem, o tempo e o espaço na sua cabeça, tudo isso, dirigido por uma empresa de pesquisa.

Isto está acontecendo AGORA.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

puro sentimento

esta manhã me levantei
pensando na sua pessoa
não havia amor perdido
não havia paixão à toa
era uma coisa boa
um sentimento puro
depois de sonhar com você
acordei de pau duro

terça-feira, 27 de outubro de 2015

contrastes

falam que sou fino
falam que sou grosso
tempestade é destino
calmaria, alvoroço

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Besouro Preto - Cap.3

   Cinco horas da manhã passa o caminhão de lixo. Zé, ao volante, não percebeu que o tranco vindo da traseira do veículo significava algo que não poderia imaginar nem nos seus piores pesadelos. Seguiu até o lixão. Como de costume gritava para seus colegas mas desta vez eles não respondiam nem apareciam no retrovisor, pendurados e sorridentes em seus uniformes laranja. Achou estranho mas estava no meio de uma crise, trocando mensagens com a amante, que exigia uma ajuda mensal se não "ia contar tudo". Ao chegar no lixão clandestino, levantou  a traseira do veículo para descarregar o lixo. O cheiro não o incomodava mais. De manhã cedo era um pouco mais sossegado, o sol suave da manhã ainda não potencializava tanto o fedor.
  -E aí, galera, que porra é essa? Cadê vocês?
  Saiu do caminhão para conferir o que estva acontecendo. Foi seu último erro. As larvas-tentáculo, cada vez maiores, o atacaram vindo de todas as direções. Elas não entravam mais pela boca, estavam muito grandes para isso. Engoliram seu corpo, em questão de segundos. Cabeça, tronco e membros. As outras seguiram para o lixão. Com a quantidade de alimento ali, em poucos dias atingirão a idade adulta. Já ensaiavam os primeiros passos para a independência de cada uma. São quatorze no total. Os catadores de lixo viram algo assustador de longe e começaram a correr. Mas não adiantava. Elas são rápidas e estão com fome. O banquete se inicia.
(cont.)