sábado, 29 de agosto de 2015

Flash Urbano número sei lá


      Uma ocasião ele a levou a um bar na praia onde as putas se encontravam, pegavam clientes e descansavam entre os trabalhos. Conhecido como Bar das Putas. Conversaram sobre política, tomaram chopes e observavam divertidamente as negociações em andamento. Suspeitavam -não sem alguma culpa - de que participavam de uma elite. Bonitos, inteligentes, cultos, bem-nascidos e acreditavam não julgar ninguém.  Mimados e não mais tão jovens. A vida já lhes sorrira um bocado, agora começava a cobrar as dívidas.  Através dos anos, já tinham destruído corações  ao longo de uma grande área geográfica. 
      Um ambiente antropologicamente rico e decadente como aquele deixava os ânimos exaltados. O número de frases espirituosas disparadas por minuto naquela mesa de alumínio não deixava o sexo, tão presente ali, interferir na conversa. Não havia necessidade da sedução, já haviam passado desta fase. Era apenas um adiamento do que iria inevitavelmente acontecer. Eles gostavam de provocar. Ele pagou a conta em dinheiro. Um táxi os esperava na porta. Foram para a casa dela e treparam a noite inteira como se não houvesse amanhã. E, de fato, não havia. 

Flash Urbano número perdi a conta

      Ainda tinha mais a dizer. Impressões a compartilhar. Compartilhavam um humor espirituoso quase debochado que havia se tornado uma marca. Qualquer assunto, qualquer notícia poderia se encaixar nessa linguagem que haviam criado. Mas não havia sentido, aquela porta havia se fechado.  Continuar enviando mensagens pelo celular parecia parecia prolongar o sofrimento antes de uma morte certa.  Mas a saudade continuava incomodando. Chegara a escrever uma carta a mão, que nunca chegaria a enviar. Não tinha coragem nem raiva suficiente para destruí-la. Ela repousava como um fóssil dentro do caderno. As três versões do manuscrito.  Parecia ridículo. Havia aberto seu coração e compartilhado seus sentimentos de um jeito que não fazia há vários anos. Não havia volta , destruíra seu personagem de misterioso. Agora era o apaixonado rejeitado que balbuciava boleros que não sabia a letra.
      Ela ainda fraquejava. Havia optado por impulso o fim por telefone. Tinha medo de vê-lo, medo de ouvir sua voz. Havia tanto por fazer. Viajar para a Europa, dançar, ir à praia. Casar, ter filhos, tudo que protelara em prol da carreira e de que tanto ouvia falar. Precisava saber como era. Ele não se encaixava nos seus planos. Muitos reajustes. Não, tudo devia ser como havia planejado, se não seria errado. Mas ainda lembrava dele e seus lábios se abriam ao deixar sair um suspiro discreto em frente ao computador.



sábado, 22 de agosto de 2015

flash urbano número x

   Estava decidida a dar para ele. De preferência hoje. Não houvera um processo consciente sobre a mudança de direção. Simplesmente havia acordado com esta decisão. Sabia que não devia requentar esse caso, que ia dar merda, mas não importava. A trepada seria incontornável. Ela sabia que ele estaria disponível em qualquer condição que ela impusesse. Não havia culpa, não havia sofrimento. Não havia frieza, e sim a tranquilidade quase zen frente ao inevitável. O sexo seria incrível, mas depois ele começaria com aquela lengalenga romântica de sempre.  A ressaca viria mais tarde. Com força. Mas agora não importava, já estavam se despedindo por mensagens de Whatsapp:
-Chego em 15 minutos.
-Ok.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Ciclos

     Acreditava em ciclos. Escolhera acreditar em ciclos. A ilusão da existência de padrões serve como um placebo para a vida e seus descaminhos. Escolher acreditar que uma pílula de açúcar contenha o remédio de que precisa. E essa fé promove processos químicos em seu cérebro que realmente melhoram sua condição. Conseguia felizmente com que a consciência do processo não diminuísse seus efeitos.
     Os ciclos de sete anos pareciam uma bom sistema. O número sete carrega uma mística misteriosa da qual se ouve falar vagamente mas não se sabe detalhes. Ciclos pessoais, profissionais, revolução astral, o escambau. Ceticismo pode ser sexy mas é muito linear. Tudo tem explicação. Tinha simpatia pelo caos, a evolução vinda da tentativa e erro através dos tempos. Darwin, Dawkins, Namedroppings. Era amigo do caos, convivia com o caos. Mas preferia desconfiar de uma ordem secreta. O Karma é uma ideia muito sedutora, muito mais do que o vaidoso culto da personalidade promovido pela Reencarnação. Um bumerangue cósmico acende referências de quadrinhos da Marvel dos anos 60. Um Karma orgânico, autogerido como um coral marinho. Uma colônia. O Universo como um organismo. Sem comissão julgadora. Punições atravessando gerações lhe pareciam uma ideia ingênua. A consciência de um erro pode ser sua própria punicão. A consciência do acerto como porta de entrada para um grande salão iluminado e silencioso. A paz interior como recompensa pela paz interior. Felicidade é silêncio. Todas as religiões seriam  metáforas, fábulas com moral e não manuais de instruções para a vida. A interpretação de texto como porta para dimensões superiores de consciência. A palavra como mágica. A palavra escrita como tatuagem. A palavra dita como presença física. Um corpo de som. A palavra cantada como hipnotismo.
      Escolhera acreditar na paixão, essa obsessão sazonal que tanto foi reverenciada na literatura e que, de tanto ouvimos falar de seus efeitos, aprendemos a criá-la, alimentá-la e senti-la. Ao mesmo tempo que identificava seus processos e suas distorções, abraçava seus efeitos como se inevitáveis. Comprando um ingresso para a montanha russa.  Não sabemos de nada, mas podemos escolher a rádio que toca enquanto dirigimos nossos carros na estrada da vida. Clichês e metáforas com sua eficiência implacável , ainda que mal-vestidos.
       Tinha uma noção superficial das escolas de filosofia, o pouco que lera apontava direções que já havia pensado por si só. Secretamente se parabenizava e preferia ler ficção, poesia e história. Mas o Estoicismo despertava sua simpatia. A vida não lhe deve nada, meu amigo.

terça-feira, 7 de julho de 2015

poesiazinha

venho por meio destas mal traçadas linhas te pedir que abandone meus pensamentos
venho por meio destas mal traçadas linhas te pedir que abandone meus pensamentos
meus pensamentos detentos
desalentos tantos

mal chegaste e já te vais
bem te quis, se mal te fiz
foi sem querer
se mal me fizeste
não sei se o quiseste

venho do leste, tu vens do oeste
nos encontramos ao norte e ao sul
eu nunca disse i love you
nunca o disseste tampouco

venho por meio destas mal traçadas linhas exigir que abandone meus pensamentos
deste jeito estou ficando louco
nossos encontros nas vias de fato em breve não caberão nos dedos da mão
nunca fazemos cenas
cartas sempre na mesa

as palavras que lavras
as notas que tocaste
as notas que edito
as palavras que cometo
meto meto meto

gostosa
voluntariosa
linda quando goza
depois tira onda com a minha cara
minha cara 
minha tara
balzaquiana





SENSE8

   Eu consumo séries de tv. Apesar de reconhecer as técnicias pra fisgar espectadores, me deixo levar e assisto. Conecta-me à Zeitgeist, me agrada o fôlego maior e menos embromação em comparação às telenovelas diárias. Fui conferir a tão falada Sense8. Identifiquei uma intenção de apresentar diferentes realidades para o jovem. Vários países, vários níveis sócio-culturais e orientações sexuais das personagens. Em tempos de doutrinação nos produtos audiovisuais - sempre foram assim, mas agora é mais explícito - me agradou a intenção de aprendizado de empatia, mas me incomodou um clima de comercial de Coca-Cola e de empresas de pesquisa. Personagens pinçados de vários cantos de mundo conectados extrasensorialmente, compartilhado realidades, sentimentos e habilidades. Comparado com tantas séries tão imperialistas, pró-E.U.A, misóginas e fúteis, vejo uma evolução nas intenções. Mas falta profundidade. Todos são bomzinhos?A conferir.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Um poeta

   Apesar da torneira da água quente já estar dando sinais de cansaço e necessitar de um macete que só ele sabia para fechá-la totalmente, ainda era uma Jacuzzi. Apesar da gritaria interminável da maldita escola de playboys, do campo de futebol do prédio vizinho e no estacionamento, palco de debates diários, todos ao redor, era um belo apartamento. Grande, arejado e com algum horizonte, coisa rara naquela cidade.  Saiu do banho imbuído de uma vontade de escrever. Era um poeta. Nunca havia publicado nada mas era poeta, sabia no seu íntimo. Quando andava na rua e os porteiros e seguranças o xingavam, era um poeta. Um artista incompreendido. Quando os adolescentes tiravam fotos suas às gargalhadas de escárnio, sabia que era um poeta. Antes de abrir o gás, deixou um bilhete que dizia:
   -Vocês não sabem de nada.