sexta-feira, 27 de março de 2015

o aprendizado do ódio

o aprendizado do ódio
vem de casa
vem da mesa de jantar
da sala de estar
da televisão no piloto automático
da indigestão mental
a certeza sem questionamento
a falta de amor
a falta de amor
a falta de conversa
a falta de carinho
a falta de atenção
crianças canalizando o ódio dos pais
e seus empregos frustrantes
suas rotinas humilhantes
suas carruagens poluentes
individuais
o outro é sempre concorrente
o outro é inimigo
todos juntos e separados
todos fodidos
todos enjaulados
nem imaginam como pode ser diferente

quinta-feira, 26 de março de 2015

improviso matinal

Trendsetting
low selfsteem
soneca, atchim
branca de neves disso
"gente de bem"
cheia de aspas
falando mal
coçando caspa
vendo no outro o veneno que tem em si
tropecei na casca de banana
caí de pé
não quero saber
mas fico sabendo
quero fugir do assunto
que continua voltando
essa cidade vai nos engolir
mas antes vai sacudir
vai espremer
a inveja
o medo
o degredo
o segredo imaginário
divulgado no noticiário
holofotes
snapshots
cachalotes
huguenotes
rimas internas
influência do rap
metalinguagem é um vício teimoso
as palavras me vem aleatórias
sem sentido
escolha o seu
não fique zangado
não seja dengoso
nas esquinas intrigas otárias
a "verdade" fica sendo o que parece, não o que é
vale o que pega na boca do polvo
fatos não tem nada a ver com isso
deixa disso
não tenho nada com isso
coitado
"gente de bem"
adora um linchamento
depois do lanche da tarde
antes da nova novela velha
que acaba de estrear
uhuuu




sexta-feira, 20 de março de 2015

Asas do Desejo e intervalos no flow

   Fui pego de surpresa pelo filme Asas do Desejo, de Wim Wenders, passando no canal Arte 1. Filme lindo, que assisti há bem mais de 20 anos. Envelheceu como um bom vinho. A Berlim dos anos 80, ainda dividida. Anjos circulando entre os humanos, ouvindo seus pensamentos, acolhendo seus dramas e às vezes invejando seus contrastes, suas montanhas-russas. Mas há intervalos comerciais cortando o flow do filme. Outrora comuns, hoje me parecem agressões incompreensíveis. O filme voltou. Ouvir pensamentos cada vez mais se torna um vício. Um dia brotar-me-ão asas, suspeito. E sei que depois quererer cair outra vez. Volta o filme, aqui me despeço.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

uma dia frio

   A janela embaçada mostra que o aquecedor voltou a funcionar na madrugada. A neve era uma coisa linda antes de conhecê-la de perto. O dia em que quase quebrou a bacia ao escorregar na portaria da vendinha do coreano foi um marco. Odeia a neve, especialmente a lama preta e escorregadia em que ela se torna quando toca o chão e começa a derreter. Não há nada para comer em casa, terá que enfrentá-la quando a fome tornar-se insuportável. Bateu saudade das meninas. Violão e cigarro vão trazer algum conforto. Não atendem meus telefonemas. Hoje tem show.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

construção constante

    Gosto de aprender, esquecer e aprender de novo. Não entendo os artistas que continuam fazendo a mesma coisa sempre. Burilando sua especialização. Repetir até ficar diferente. Alguns dos meus músicos preferidos são assim. Personalidade forte e pouca versatilidade. Outros de meus músicos preferidos tem fases e interesses distintos, a versatilidade é parte da sua essência.  Reduzir a fases a mutiplicidade  implicaria em uma sequência cronológica, quando muitas vezes são canais distintos que trabalham em paralelo.
   Fases/canais que identifico no minha expressão artística e nos meus interesses auditivos:
-trilhas sonoras orquestrais mainstream
-improviso;

-instrumental brasileiro;
-jazz
-rock 
-soul/funk/r'n'b
-hip hop;
-Brock
-pop

-mpb
-progressivo
-blues
-country
-choro
-folk
-samba
-noise
-ambient
-erudito contemporâneo
-impressionismo

sábado, 31 de janeiro de 2015

improviso

coragem para mergulhar num sentimento
que aumenta ao redor enquanto tudo mais fica menor
poesia no computador é uma coisa estranha
o tec tec não ecoa
com o erro não se negocia mais
editar é fácil demais
a rima nos ensina a sina
rima interna quebra perna
metalinguagem obsessão
camisa de força
macacão sem dono
eu não sou ludista
mas há encantos
no tempo dos quebrantos
dos santos
das marionetes
das vedetes
das fadas
dos monstros
dos vilões
dos alçapões
no fluxo do pensamento
na escrita a mão
mas a caneta também foi feita à máquina
plástico, tinta e tungstênio
tinta é veneno
tinta é remédio
acabou o papel
quimera quem dera vir me visitar
na minha sala de mal estar noturno
bota e coturno nunca usei
pé de chinelo eu sou eu sei
não sou do tempo do nanquim
e agora o que me diz?
sem tecnologia
só vale o que se fala
somente o que estala
na língua
que acaricia
e xinga
e ignora
e estica e enrola
e corrobora com toda intenção
consciente ou não
acabou-se o que era la dolce vita
la fonte di trevere
no parlo niente
escrevo de memória
invento alguma história
nesta madrugada
verborragia propedêutica
hermenêutica
ethos, pathos
não sei o que quer dizer nada de deixa disso
faço um feitiço
toco de ouvido
play by heart
repeat from the start
you foxy foxy lady
minha oitava insistente
seus dentes
seus cachos
suas ancas
que agarro nacos
preciso cortar as unhas
preciso conhecer a cataluña
seus dentes secos
sua luz quente
flores dos seus ombros
brotarão dos escombros
como eram lindos meus navios que irei incendiar





quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Concreto

-Construir represas gigantes é mais lucrativo para as empreiteiras do que reservas de água para cada bairro.
-Construir hidrelétricas gigantes é mais lucrativo para as empreiteiras do que captação de energia solar em cada casa.
-Construir hospitais gigantes é mais lucrativo para as empreiteiras do que postos de saúde de medicina preventiva para cada bairro.
-Construir escolas gigantes é mais lucrativo para as empreiteiras do que construir escolas pequenas e médias em cada bairro. (aumentar o piso salarial e investir na capacitação de professores, nem pensar, mas estou falando de construções)
-"Privatiza que melhora." ‪#‎soquenao‬
-Está tudo na cara. A prioridade é o lucro, e não o cidadão. As empreiteiras mandam. Bancam as campanhas dos candidatos da situação e oposição. Vivemos no país do concreto. E, quer saber, não gosto do Niemeyer. Os desenhos são bonitos, mas as construções não são para pessoas usarem. Pouco banheiro e nenhuma árvore. E concreto esquenta pra caralho.