quarta-feira, 22 de abril de 2015

Flash Urbano nº sei lá qual

Ela jogou-se na cama aos prantos, abraçando dois travesseiros. Ela os apertava com força, como se pudesse deles extrair a dor que sentia. Não havia mais nada além daquele sentimento puro. Não repetia em sua mente o que a havia conduzido àquela situação. Sorvia aquele momento como se fosse um prazer. Os carros não buzinavam mais, os vizinhos não ouviam música alta depois das 22h. Seu filho pequeno não chorava. Não chovia, não trovejava. Nada mais havia. Em um movimento brusco, virou de costas e fitou a luminária. Ainda soluçava. Nunca gostara daquela luminária. Não tinha sido barata e ele que escolheu. Amanhã procuraria outra.  Buzinou um carro impaciente.  22:30. Horário do caminhão de lixo. Os vizinhos ouvem Bon Jovi. Seu filho dormiu. Parou de chover.  Ligou a Tv. Novela. Perfeito. Chocolate na segunda gaveta. Ainda há esperança.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Flash setentista

    Sua salvação era o sexo dos pombos. Desde que tinha sido preso no DOI-CODI devido a suas posições políticas -Um militar comunista, onde já se viu?-, observar os pombos pela janela era o que mantinha suas sanidade. As suas sessões de tortura que lehe eram reservadas eram mais de natureza psicológica. Hinos militares a volumes ensurdecedores, temperaturas gélidas alternando com o bafo do inferno. A privação do sono começa a fazer efeitos alucinatórios a partir do terceiro dia. Mas havia a janela da qual se via um pátio onde se reuniam pombos. A corte do pombo era um ritual previsível mas com pequenas variações. O pombo seguia a pomba onde quer que ela fosse. Ela voava para a chaminé, lá ia ele atrás. Se ela descia imediatamente após a chegada dele, não havia problema. Não havia protestos, não havia muxuxo. Os pombos seguiam sua programação genética com a inexpressividade de um peixe. Mas havia o movimento frenético do pescoço para frente e para trás. Parecia que estava de alguma forma associado ao movimento das patas. A corte podia durar até dez minutos em média. Eis que, de repente, a pomba resolve continuar onde estava, mesmo com a chegada do pretendente. Sutilmente dava as costas para este, de ladinho. Ele, prontamente a montava e fazia o que tinha de fazer. A cópula durava não passava de ridículos dois segundos. O lance era a corte.
     Quando a temperatura começava a baixar, ele começava a pular. Polichinelos eram familiares. Ele podia imaginar que era um cabo siberiano. A observação dos pombos era melhor quando o clima da sala estava mais quente. Quanto menos movimento, melhor. Difícil era vê-los voando. Invejava com todas suas forças a estupidez dos pombos. Eles podiam voar.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Exercício de Descrição de Personagem N.2

      Tinha raiva do vizinho. Ele não trabalhava, onde já se viu? E vivia nesse apartamento grande, com que dinheiro?  E maconheiro, ainda por cima. Deve ser traficante, com certeza. E ainda cumprimentava "Bom Dia" no elevador, que cara-de-pau. Por ela, tinha que ir pro paredão, crivado de bala. Semana passada teve festa lá na casa do tarado. Com certeza, tarado. Outro dia, olhou para uma adolescente no Shopping. Onde já se viu? Olhou para a bunda dela, ela viu. Quer dizer, quem viu foi a colega, Neide. Mas o segurança pegou o vídeo da câmera de segurança e vai botar na Internet. Ele vai ver só.  Mas nessa festa do tarado tinha mulher tatuada, tinha viado, música alta até tarde. E tinha muito músico cabeludo, essa raça do Demo. Ela só gosta de música de Louvor. Brigou com a mãe, expulsou a velha de casa. Macumbeira, onde já se viu? Tinha até estátua de São Jorge, Cruz Credo!

terça-feira, 14 de abril de 2015

exercício de descrição de personagem n.1

    Chegou a alcançar algum sucesso em algum período distante. Autógrafos semanais, compras à vista, contas de restaurante pagas em cash. Mas nunca deixava que as circunstâncias lhe embotassem a certeza de que tudo passaria. Sabia que não fazia parte daquele universo sorridente, era um passe com prazo de validade. Não esperou ser despedido, se adiantou e pediu para sair. Seu talento era tão grande quanto a sua incompetência social. Não sabia fazer política, alternava entre o desprezo e carência. Idolatrava em segredo a figura do gênio incompreendido. Se fazia de cínico mas na verdade era um romântico. Seu ego grande e frágil precisava de aprovação constante. Era como um balão furado que precisava sempre ser enchido. Depois de dois anos e meio de delírios artísticos sem reconhecimento algum teve que se render a um trabalho que seria absolutamente inimaginável em outros tempos. Nada como o dia-a-dia para mostrar como as coisas são.  Acabaram as reservas e as contas continuavam chegando.
    Boatos sobre a sua sexualidade eram de uma variedade impressionante. Seu olhar era tão expressivo que expressava até o que não sentia, incendiando fantasias alheias. Estava na boca do povo. O nome queimado na praça. Sua vaidade não permitia que ignorasse as opiniões dos outros tanto quanto gostaria. Seguia em sua especialidade: Balzaquianas. Mulheres na casa dos 30 e 40 tem o equilíbrio entre o savoir-faire e o viço da juventude.  O frenesi e a falta de assunto das muito jovens lhe entediava. Precisava de uma boa conversa. Precisava de história, queria mulheres com passado.  Em festas se arrastava acuado pelas paredes mas era imbatível em um Petit- Comitê. Em uma mesa de bar era um virtuose. Seu conhecimento superficial sobre uma variedade absurda de assuntos e suas tiradas mordazes não deixavam pedra sobre pedra. Elas caíam feito moscas. Seu rosto quase bonito não atrapalhava. Não era um cafajeste, quase não mentia. O leve desespero pela maternidade incentivava nelas uma objetividade muito peculiar e proveitosa, que ele aproveitava com discrição e até alguma sinceridade.  Cartas na mesa, sempre. Considerava a sequência de mulheres como uma espécie de compensação pelas dificuldades que a vida dura lhe trazia. Dificuldades filosóficas principalmente. Vivia de renda, possuía alguns apartamentos que herdara e alugava. Não precisava de luxo, vivia quase como um monge, tirando a parte do celibato. Os porteiros não conseguiam decifrar aquele enigma. Era tema diário de discussões de calçada. Faziam até apostas.

sexta-feira, 27 de março de 2015

o aprendizado do ódio

o aprendizado do ódio
vem de casa
vem da mesa de jantar
da sala de estar
da televisão no piloto automático
da indigestão mental
a certeza sem questionamento
a falta de amor
a falta de amor
a falta de conversa
a falta de carinho
a falta de atenção
crianças canalizando o ódio dos pais
e seus empregos frustrantes
suas rotinas humilhantes
suas carruagens poluentes
individuais
o outro é sempre concorrente
o outro é inimigo
todos juntos e separados
todos fodidos
todos enjaulados
nem imaginam como pode ser diferente

quinta-feira, 26 de março de 2015

improviso matinal

Trendsetting
low selfsteem
soneca, atchim
branca de neves disso
"gente de bem"
cheia de aspas
falando mal
coçando caspa
vendo no outro o veneno que tem em si
tropecei na casca de banana
caí de pé
não quero saber
mas fico sabendo
quero fugir do assunto
que continua voltando
essa cidade vai nos engolir
mas antes vai sacudir
vai espremer
a inveja
o medo
o degredo
o segredo imaginário
divulgado no noticiário
holofotes
snapshots
cachalotes
huguenotes
rimas internas
influência do rap
metalinguagem é um vício teimoso
as palavras me vem aleatórias
sem sentido
escolha o seu
não fique zangado
não seja dengoso
nas esquinas intrigas otárias
a "verdade" fica sendo o que parece, não o que é
vale o que pega na boca do polvo
fatos não tem nada a ver com isso
deixa disso
não tenho nada com isso
coitado
"gente de bem"
adora um linchamento
depois do lanche da tarde
antes da nova novela velha
que acaba de estrear
uhuuu




sexta-feira, 20 de março de 2015

Asas do Desejo e intervalos no flow

   Fui pego de surpresa pelo filme Asas do Desejo, de Wim Wenders, passando no canal Arte 1. Filme lindo, que assisti há bem mais de 20 anos. Envelheceu como um bom vinho. A Berlim dos anos 80, ainda dividida. Anjos circulando entre os humanos, ouvindo seus pensamentos, acolhendo seus dramas e às vezes invejando seus contrastes, suas montanhas-russas. Mas há intervalos comerciais cortando o flow do filme. Outrora comuns, hoje me parecem agressões incompreensíveis. O filme voltou. Ouvir pensamentos cada vez mais se torna um vício. Um dia brotar-me-ão asas, suspeito. E sei que depois quererer cair outra vez. Volta o filme, aqui me despeço.