terça-feira, 7 de julho de 2015

poesiazinha

venho por meio destas mal traçadas linhas te pedir que abandone meus pensamentos
venho por meio destas mal traçadas linhas te pedir que abandone meus pensamentos
meus pensamentos detentos
desalentos tantos

mal chegaste e já te vais
bem te quis, se mal te fiz
foi sem querer
se mal me fizeste
não sei se o quiseste

venho do leste, tu vens do oeste
nos encontramos ao norte e ao sul
eu nunca disse i love you
nunca o disseste tampouco

venho por meio destas mal traçadas linhas exigir que abandone meus pensamentos
deste jeito estou ficando louco
nossos encontros nas vias de fato em breve não caberão nos dedos da mão
nunca fazemos cenas
cartas sempre na mesa

as palavras que lavras
as notas que tocaste
as notas que edito
as palavras que cometo
meto meto meto

gostosa
voluntariosa
linda quando goza
depois tira onda com a minha cara
minha cara 
minha tara
balzaquiana





SENSE8

   Eu consumo séries de tv. Apesar de reconhecer as técnicias pra fisgar espectadores, me deixo levar e assisto. Conecta-me à Zeitgeist, me agrada o fôlego maior e menos embromação em comparação às telenovelas diárias. Fui conferir a tão falada Sense8. Identifiquei uma intenção de apresentar diferentes realidades para o jovem. Vários países, vários níveis sócio-culturais e orientações sexuais das personagens. Em tempos de doutrinação nos produtos audiovisuais - sempre foram assim, mas agora é mais explícito - me agradou a intenção de aprendizado de empatia, mas me incomodou um clima de comercial de Coca-Cola e de empresas de pesquisa. Personagens pinçados de vários cantos de mundo conectados extrasensorialmente, compartilhado realidades, sentimentos e habilidades. Comparado com tantas séries tão imperialistas, pró-E.U.A, misóginas e fúteis, vejo uma evolução nas intenções. Mas falta profundidade. Todos são bomzinhos?A conferir.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Um poeta

   Apesar da torneira da água quente já estar dando sinais de cansaço e necessitar de um macete que só ele sabia para fechá-la totalmente, ainda era uma Jacuzzi. Apesar da gritaria interminável da maldita escola de playboys, do campo de futebol do prédio vizinho e no estacionamento, palco de debates diários, todos ao redor, era um belo apartamento. Grande, arejado e com algum horizonte, coisa rara naquela cidade.  Saiu do banho imbuído de uma vontade de escrever. Era um poeta. Nunca havia publicado nada mas era poeta, sabia no seu íntimo. Quando andava na rua e os porteiros e seguranças o xingavam, era um poeta. Um artista incompreendido. Quando os adolescentes tiravam fotos suas às gargalhadas de escárnio, sabia que era um poeta. Antes de abrir o gás, deixou um bilhete que dizia:
   -Vocês não sabem de nada.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Golfinhos

   Desconfio que os golfinhos nos são superiores. A linguagem deles que para nós são apenas squik squik, alcança patamares superiores através de seus sonares poderosos e sutis. Através dos sons eles conseguem -informações de Carl Sagan- criar intencionalmente paisagens tridimensionais sonoras. Para avisar que há um tubarão a caminho, simulam a silhueta do reflexo de um tubarão a caminho. E todas as outras situações para que a linguagem pode servir. Poesia sonora espacial. Hologramas de audio. Uma frase que cria um ambiente sonoro. Um parágrafo que É um ambiente sonoro. Imagine que onda seria um gracejo de um golfinho para uma golfinha em forma de um som que imita uma onda em forma de bolha que os envolve. Surfistas, poetas, músicos, escultores, nadadores, dançarinos. Não precisam de carros, não precisam de roupas nem apartamentos. Utilizando pedras, corais e o fundo arenoso do mar, os ecos são planejados e criam castelos impossíveis de água. Apenas feche os olhos.
  Squik, Squik.

quotes quiz:
"We could swim like dolphins."
"Thanks for the fish."

dolphin dance-herbie hancock  https://www.youtube.com/watch?v=iB2Z2DY17yQ




quarta-feira, 22 de abril de 2015

Flash Urbano nº sei lá qual

Ela jogou-se na cama aos prantos, abraçando dois travesseiros. Ela os apertava com força, como se pudesse deles extrair a dor que sentia. Não havia mais nada além daquele sentimento puro. Não repetia em sua mente o que a havia conduzido àquela situação. Sorvia aquele momento como se fosse um prazer. Os carros não buzinavam mais, os vizinhos não ouviam música alta depois das 22h. Seu filho pequeno não chorava. Não chovia, não trovejava. Nada mais havia. Em um movimento brusco, virou de costas e fitou a luminária. Ainda soluçava. Nunca gostara daquela luminária. Não tinha sido barata e ele que escolheu. Amanhã procuraria outra.  Buzinou um carro impaciente.  22:30. Horário do caminhão de lixo. Os vizinhos ouvem Bon Jovi. Seu filho dormiu. Parou de chover.  Ligou a Tv. Novela. Perfeito. Chocolate na segunda gaveta. Ainda há esperança.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Flash setentista

    Sua salvação era o sexo dos pombos. Desde que tinha sido preso no DOI-CODI devido a suas posições políticas -Um militar comunista, onde já se viu?-, observar os pombos pela janela era o que mantinha suas sanidade. As suas sessões de tortura que lehe eram reservadas eram mais de natureza psicológica. Hinos militares a volumes ensurdecedores, temperaturas gélidas alternando com o bafo do inferno. A privação do sono começa a fazer efeitos alucinatórios a partir do terceiro dia. Mas havia a janela da qual se via um pátio onde se reuniam pombos. A corte do pombo era um ritual previsível mas com pequenas variações. O pombo seguia a pomba onde quer que ela fosse. Ela voava para a chaminé, lá ia ele atrás. Se ela descia imediatamente após a chegada dele, não havia problema. Não havia protestos, não havia muxuxo. Os pombos seguiam sua programação genética com a inexpressividade de um peixe. Mas havia o movimento frenético do pescoço para frente e para trás. Parecia que estava de alguma forma associado ao movimento das patas. A corte podia durar até dez minutos em média. Eis que, de repente, a pomba resolve continuar onde estava, mesmo com a chegada do pretendente. Sutilmente dava as costas para este, de ladinho. Ele, prontamente a montava e fazia o que tinha de fazer. A cópula durava não passava de ridículos dois segundos. O lance era a corte.
     Quando a temperatura começava a baixar, ele começava a pular. Polichinelos eram familiares. Ele podia imaginar que era um cabo siberiano. A observação dos pombos era melhor quando o clima da sala estava mais quente. Quanto menos movimento, melhor. Difícil era vê-los voando. Invejava com todas suas forças a estupidez dos pombos. Eles podiam voar.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Exercício de Descrição de Personagem N.2

      Tinha raiva do vizinho. Ele não trabalhava, onde já se viu? E vivia nesse apartamento grande, com que dinheiro?  E maconheiro, ainda por cima. Deve ser traficante, com certeza. E ainda cumprimentava "Bom Dia" no elevador, que cara-de-pau. Por ela, tinha que ir pro paredão, crivado de bala. Semana passada teve festa lá na casa do tarado. Com certeza, tarado. Outro dia, olhou para uma adolescente no Shopping. Onde já se viu? Olhou para a bunda dela, ela viu. Quer dizer, quem viu foi a colega, Neide. Mas o segurança pegou o vídeo da câmera de segurança e vai botar na Internet. Ele vai ver só.  Mas nessa festa do tarado tinha mulher tatuada, tinha viado, música alta até tarde. E tinha muito músico cabeludo, essa raça do Demo. Ela só gosta de música de Louvor. Brigou com a mãe, expulsou a velha de casa. Macumbeira, onde já se viu? Tinha até estátua de São Jorge, Cruz Credo!